A Estância Silvânia foi pioneira na seleção e na produção de leite A2 a partir de vacas da raça GIR Leiteiro, no Brasil, e hoje é reconhecida internacionalmente. A fazenda também promove diversos festivais durante o ano que atrai turistas do Brasil e de fora do país

Mesa posta com alguns dos queijos e iogurte premiados da Estância Silvânia. Em segundo plano, parte do rebanho zebuíno da raça GIR Leiteiro e ao fundo a bela Serra da Mantiqueira. Foto: Viagem News
No município de Caçapava, a Rota Gastronômica Mantiqueira Paulista e Rios do Vale tem como um grande atrativo, a fazenda Estância Silvânia, que tornou-se um ponto turístico, após ficar conhecida pela produção e comercialização do leite A2 e de seus derivados como queijos e iogurte, premiados nacional e internacionalmente.
A fazenda foi a pioneira, no Brasil, na seleção e produção do leite A2 e também foi a primeira fazenda da América Latina a ser certificada para o bem-estar animal e para o leite A2, produzido à partir de vacas da raça zebuína indiana GIR Leiteiro.
Para aqueles que desconhecem o assunto, o leite A2 é o leite original de todas as fêmeas mamíferas. Após uma mutação genética, alguns animais taurinos começaram a produzir o leite A1 que é o leite mais comum consumido atualmente aqui no Brasil.
O leite comum contém as proteínas beta-caseína A1 e A2, com o aminoácido histidina, no lugar do aminoácido prolina, o que dificulta sua digestão pelos seres humanos. Diferentemente, o leite A2 contém apenas a proteína beta-caseína A2 com o aminoácido prolina em sua constituição. Já o termo A2A2 diz respeito ao par de genes responsáveis pela produção da beta-caseína A2. Na prática, a diferença para o leite comum é que de acordo com estudos realizados, o leite A2 é considerado de mais fácil digestão, desta forma, ele pode reduzir desconfortos abdominais em pessoas com sensibilidade a laticínios e não causa alergias.
No entanto, vale ressaltar que isso nada tem a ver com a questão da intolerância à lactose, a qual está ligada à incapacidade de digestão do açúcar do leite, causada pela deficiência ou ausência da enzima intestinal lactase. Até por este motivo, é que existe o leite A2 sem lactose.
A Estância Silvânia faz a seleção genética da raça indiana GIR Leiteiro há 64 anos, e hoje a Índia já reconhece o Brasil como o melhor melhorador dessa raça. “Então, a gente já consegue voltar essa genética pra Índia em forma de sêmen, embriões. Fomos a primeira fazenda a exportar sêmen de volta pra Índia, a gente exporta pra África, Índia e toda a América Latina. Onde tem clima tropical, é onde a gente exporta essa raça”, explicou orgulhosa Camila Almeida, mestre queijeira e proprietária da fazenda juntamente com seu marido, o veterinário Eduardo Falcão de Carvalho.
Queijos premiados


Alguns dos queijos premiados da fazenda Estância Silvânia. Fotos: Viagem News
Em relação aos queijos, todos eles são produzidos com o leite A2 e receberam vários prêmios nacionais e internacionais. Já em sua primeira participação no concurso Prêmio Brasil de Queijo, realizado em São Paulo, no ano de 2017, a Estância Silvânia conquistou 6 medalhas, sendo 5 de prata e uma de bronze.
Camila conta que foi a partir deste momento que a fazenda começou a chamar a atenção, não apenas do consumidor de queijos, mas também do público consumidor de produtos genéticos, porque as pessoas que faziam queijo começaram a perceber a diferença na qualidade do leite por conta da genética. “Então, hoje a gente tem muito produtor de queijo que consome da nossa genética também, então, foi bem interessante”, declarou Camila.
No ano de 2018, Camila foi estudar e fazer mestrado na França, onde se diplomou mestre queijeira pela Guilde Internationale des Fromagers, uma renomada organização sem fins lucrativos que tem por missão reunir pessoas relacionadas às cadeias da produção leiteira, em todos os níveis e no mundo inteiro.
Desse período na França, ela trouxe outras técnicas de maturação dos queijos. “Eu fiquei um ano fazendo essas técnicas diferentes. Esses tipos de maturação diferente com mofos diferentes, mas sempre buscando ingredientes brasileiros também pra colocar nos nossos produtos, dando essa caracterização nossa de Brasil, né? De ser de leite cru, de ser de animal em pasto, e também com ingredientes brasileiros”, disse Camila.
Assim, em 2018, em sua participação no Prêmio Brasil de Queijos, a fazenda ganhou 10 medalhas (3 de ouro, 5 de prata e 2 de bronze) sendo a fazenda brasileira mais premiada no concurso. Sobre isso, Camila explicou entusiasmada: “A gente conseguiu 3 medalhas de ouro e essas 3 medalhas de ouro foram medalhas que tinham sido prata no ano anterior, Então, a gente conseguiu melhorar, porque esses queijos, eles têm fichas de avaliação, quando você participa do campeonato, você recebe uma ficha de avaliação, então o produtor tem a oportunidade de melhorar. É o produto!”
De volta à França no ano de 2019, para estudar, Camila foi convidada a ser jurada da Guilde Internationale des Fromagers, exercendo essa função até os dias de hoje.
No Mundial de Fromage na França 2021, o primeiro mundial internacional que a Estância Silvânia participou, a fazenda ganhou 5 medalhas. O “Primavera” e o “Serrinha na Cerveja” ganharam medalhas de ouro, “o Defumado” e o “Serrinha” ganharam medalha de prata, e o “Taiada Silvânia” ganhou medalha de bronze.
Entre os queijos da fazenda, aquele que mais atiça a curiosidade das pessoas é o “Taiada Silvânia” feito com a “bundinha” da içá. Mas, o que é iça? Içá é o nome popular da fêmea alada da formiga saúva, também conhecida como tanajura e que possui a parte traseira de seu corpo avantajada. A fabricação desse queijo começa com a torra da parte traseira da formiga com óleo de azeite da região. Depois de torrado, ela é adicionada ao queijo dando-lhe uma crocância. O sabor da içá torrada parece com o do amendoim.

A mestre queijeira e proprietária da Estância Silvânia, Camila Almeida com o queijo “Taiada Silvânia” feito com içá. Foto: Viagem News
Camila contou um fato inusitado que ocorreu com esse queijo: “Em Caçapava, ele virou presente para as pessoas mais velhas, presente de Dia das Mães e Dia dos pais, lembrancinha para a avó…
Com todo esse sucesso, Camila revelou: “A gente tá programando de fazer um festival de Içá também aqui, muito em breve”.
Após o reconhecimento dos queijos brasileiros nos mundiais da França, em 2022, aconteceu o Primeiro Mundial de Queijo no Brasil, pois a França entendeu que o país era um grande produtor de queijo e, por esta razão, trouxe o mundial da França, para o Brasil. Desde então, o mundial acontece um ano na França e outro ano no Brasil, alternadamente.
Nesse campeonato de 2022 no Brasil, a Estância Silvânia ganhou 8 medalhas e o primeiro super-ouro com o queijo “Desejo”, um queijo de mofo branco banhado com cachaça. Assim, a fazenda está sempre nas primeiras posições do ranking. “É muito bom pra gente, mas, não só por conta da medalha, mas, por essa oportunidade de levar um pequeno produtor pra ganhar um prêmio na França”, afirmou Camila.
No ano de 2023, na França, a fazenda levou 2 medalhas de ouro, uma com o queijo “Santa Brigite” e outra com o “Valoro”.
Em 2024, a Estância não competiu e em 2025 ganhou, entre outros campeonatos, a Copa América Super Ouro, no Peru com o queijo “Taiada”.
O carro-chefe dos queijos é o “Primavera”, feito com um mix de flores comestíveis e óleo de lavanda na massa. Já no queijo “Valoro” é utilizado o urucum no banho da casca, enquanto no “Rubi” é usado o licor de beterraba.
No ano de 2025, além dos queijos, Camila levou para a competição na França, um iogurte desenvolvido com apenas dois ingredientes: leite e açúcar orgânico. Este iogurte ganhou a medalha de ouro. “Ele foi considerado o melhor iogurte do mundo e nenhum iogurte nunca tinha ganhado nessa categoria, medalha de ouro, ele foi o primeiro!”, comentou ela.

Iogurte “Nectar Silvânia”, considerado o melhor iogurte do mundo. Foto: Viagem News
De acordo com Camila, foi realizada uma pesquisa na Espanha, certificada pelo FDA, que mostrou que o iogurte de leite A2 de animal em pasto, sem hormônio, sem açúcar, cura disbiose e diabete tipo 2. “Esse iogurte é indicado mesmo como tratamentos, os médicos prescrevem para as pessoas consumirem o iogurte”, enfatizou.
Há também a versão do iogurte sem açúcar e o iogurte grego.
A Estância Silvânia foi a fazenda brasileira com o maior número de medalhas de ouro do campeonato mundial e foi a queijaria artesanal com mais medalhas de ouro do mundo. “Então, assim a gente concorreu com gigantes, e a gente que ganhou mais medalhas você pega no ranking lá somos a primeira”, ressaltou Camila.



Escritório da Estância Silvânia repleta de prêmios e certificados ganhos pela fazenda. Fotos: Viagem News
Eventos na fazenda
Uma vez por mês, num sábado, a fazenda realiza uma feira aberta ao público reunindo produtores no entorno de 30 km.
E uma vez por ano, sempre em outubro, acontece o Festival da Vaca Sagrada. Este festival recebe, além dos turistas, os mestres queijeiros da Índia. Na festa é realizada a cerimônia do fogo, a cerimônia da vaca, na qual ela é toda enfeitada. Em sua última edição, o festival recebeu 260 pessoas de 9 países.
A Estância Silvânia costuma realizar outros eventos, inclusive com shows e apresentações musicais, que atraem cada vez mais turistas ao local.




