Escultura que representa Madrinha Eunice, de autoria de Lídia Lisboa,
implantada na praça em 2022. Foto: José Rosael/Acervo Museu Paulista da USP
Exposição revisita a história da Liberdade a partir das sucessivas ocupações de grupos étnicos, entre os séculos 18 e 20, como indígenas, portugueses, afro-brasileiros, japoneses, italianos, alemães, russos, estadunidenses, chineses, taiwaneses, libaneses, haitianos, guineenses e outros que configuraram o bairro
O que é um bairro? E o que é um bairro étnico? Com base nessas perguntas basilares, o Museu do Ipiranga abre ao público, em 7 de julho, “Liberdade: bairro plural”, exposição inédita que propõe um novo olhar sobre um dos bairros mais lembrados da cidade de São Paulo.
Frequentemente associado à imigração japonesa, o bairro da Liberdade possui uma trajetória muito mais ampla e complexa. Por mais de dois séculos, a região foi ocupada e transformada por diferentes grupos sociais e étnicos, tornando-se um território marcado por encontros, trocas culturais, permanências, deslocamentos e disputas de memória.
Com curadoria dos historiadores Paulo Garcez Marins, Monica Schpun, Aline Montenegro Magalhães, Francisco Andrade e David Ribeiro, a exposição é organizada em três módulos e apresenta a Liberdade como um território em permanente transformação. A pesquisa investiga como se formam os bairros étnicos, como diferentes grupos constroem pertencimentos urbanos e como as memórias coletivas são continuamente reinventadas.
Transformações do bairro e instituições parceiras
A exposição convida a compreender como se formou essa pluralidade. Situado ao sul da Praça da Sé, o bairro começou a ser ocupado ainda no período colonial por indígenas, portugueses, africanos e afro-brasileiros escravizados ou livres. No século 19, a presença da forca, do pelourinho, do Hospital da Santa Casa, do Cemitério dos Aflitos e da Casa de Pólvora fez com que a região fosse associada à morte, à punição e à exclusão social, tornando os imóveis mais acessíveis para populações de menor renda e para novos moradores.
A partir das últimas décadas do século 19, a Liberdade passou a atrair sucessivas ondas migratórias. Italianos, portugueses, alemães, japoneses, chineses, taiwaneses, russos, libaneses e norte-americanos estabeleceram no bairro residências, templos religiosos, associações culturais, escolas, jornais e espaços de sociabilidade. Mais recentemente, a região passou a acolher também migrantes e refugiados vindos da África, da América Latina, do Caribe e do Oriente Médio, renovando continuamente sua diversidade.
Ao reunir objetos, fotografias, documentos, vestimentas, instrumentos musicais, mobiliário, projetos arquitetônicos e obras de arte provenientes de instituições sediadas ou historicamente ligadas ao bairro, a exposição revela como diferentes comunidades contribuíram para moldar a paisagem cultural da Liberdade.
A exposição apresenta acervos vinculados à Associação Okinawa Kenjin do Brasil, ao Museu Histórico da Imigração Japonesa, ao Centro Cultural de Taipei, à Igreja Presbiteriana de Formosa, à Catedral Ortodoxa Russa, à Catedral Maronita Nossa Senhora do Líbano, à Casa de Portugal, à Sociedade Filarmônica Lyra, à Igreja Nossa Senhora da Paz, ao Templo Budista Busshinji, ao Centro de Estudos da Cultura da Guiné, à Capela dos Aflitos, à Frente Negra Brasileira, à Catedral Metodista de São Paulo, ao Exército de Salvação, à Ocupação dos Imigrantes Jean-Jacques Dessalines, à Liga Itálica e à Igreja da Santa Cruz dos Enforcados.
Apagamentos e disputa de memória
A curadoria evidencia que a pluralidade da Liberdade não resulta apenas da coexistência de diferentes grupos, mas das relações construídas entre eles. Ao longo do tempo, o bairro se consolidou como um espaço de convivência, negociação e intercâmbio cultural, onde distintas tradições religiosas, linguísticas e associativas passaram a compartilhar o mesmo território.
Além de destacar essas presenças, a exposição aborda processos de apagamento e disputa de memória. O percurso apresenta episódios como a atuação da Frente Negra Brasileira na década de 1930, a importância do Cemitério e da Capela dos Aflitos para a preservação das memórias negras, a demolição da histórica Igreja dos Remédios, a perseguição e expulsão de famílias japonesas durante a Segunda Guerra Mundial e o confisco da sede da Sociedade Filarmônica Lyra, ligada à comunidade alemã.
Outro tema central da exposição é a construção da imagem atual da Liberdade como “bairro japonês”. A partir da década de 1970, por iniciativa de comerciantes e da Prefeitura, foram feitas intervenções urbanas inspiradas na estética japonesa, que transformaram a paisagem local e consolidaram uma identidade visual que se tornou símbolo turístico da cidade. A exposição propõe refletir sobre esse processo e sobre como ele contribuiu para ampliar a visibilidade da presença nipo-brasileira, ao mesmo tempo em que favoreceu a opacidade das demais presenças étnicas.
Ao inaugurar Liberdade: bairro plural, o Museu do Ipiranga incentiva uma leitura mais complexa do desenvolvimento da cidade e valoriza a diversidade cultural que compõe a sociedade brasileira.
Serviço
Exposição “Liberdade: bairro plural”
7 de julho de 2026 a 31 de janeiro de 2027
De terça a domingo, das 10h às 17h. Última entrada: 16h
Sala de exposições temporárias – Museu do Ipiranga
Entrada gratuita (somente para esta exposição)
Curadoria: Monica Schpun e Paulo Garcez Marins
Museu do Ipiranga
Endereço: Rua dos Patriotas, 100
Funcionamento: Terça a domingo (incluindo feriados), das 10h às 17h (última entrada às 16h). A bilheteria abre às 9h nos dias pagos e 10h nos dias de gratuidade.
Ingressos para as exposições de longa-duração: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada).
Gratuidades: Quartas-feiras e primeiro domingo do mês, além de entrada franca para públicos específicos. Confira mais informações: museudoipiranga.org.br/visite/
Transporte público: De metrô, há três estações da linha 2 (verde) próximas ao Museu, Alto do Ipiranga (30 minutos de caminhada), Santos-Imigrantes (25 minutos a pé) e Sacomã (25 minutos a pé). A linha 710 da CPTM tem uma parada no Ipiranga (20 minutos de caminhada).
Principais linhas de ônibus: 4113-10 (Gentil de Moura – Pça da República), 4706-10 (Jd. Maria Estela – Metrô Vila Mariana), 478P-10 (Sacomã – Pompeia), 476G-10 (Ibirapuera – Jd.Elba), 5705-10 (Terminal Sacomã – metrô Vergueiro), 314J-10 (Pça Almeida Junior – Pq. Sta Madalena), 218 (São Bernardo do Campo – São Paulo).
Pessoas com deficiência em transporte individual: na entrada da rua Xavier de Almeida, nº 1, há vagas rotativas (zona azul) em 90°.
Bicicletas: para quem usa bicicleta, há paraciclos disponíveis próximos aos portões da R. Xavier de Almeida e R. dos Patriotas.





