Em junho, as vinícolas do Uruguai acendem suas fogueiras para celebrar o encontro entre a uva nacional, a carne de cordeiro e a Noite de San Juan — um convite a percorrer o país de Canelones ao norte de Rivera
Em junho, enquanto o hemisfério norte celebra a chegada do verão, o Uruguai dá as boas-vindas ao inverno ao redor do fogo. É nesse período que acontece o Festival Tannat & Cordero, um dos eventos mais tradicionais do calendário enogastronômico do país, realizado ao longo dos fins de semana de junho nas vinícolas turísticas uruguaias.
O festival reúne os dois grandes emblemas da mesa uruguaia — o vinho Tannat e a carne ovina — em uma harmonização que define a identidade gastronômica nacional. O calendário se entrelaça com a Noite de San Juan, celebrada em torno de 23 e 24 de junho, quando as fogueiras assumem o papel central da festa.
San Juan: o fogo que renova
A Noite de San Juan tem origem europeia, mas ganhou identidade própria no Uruguai. Diferentemente do hemisfério norte, onde se celebra a chegada do verão, na versão uruguaia recebe-se o inverno; a celebração se incorporou ao país há mais de uma década. Em suas origens era uma festa pagã que o cristianismo associou à véspera do nascimento de São João Batista, em 24 de junho. O gesto de acender uma fogueira no auge do inverno carrega um simbolismo de renovação e recomeço que, num país de campo aberto, ganha dimensão particular.
Tannat e cordeiro: a alma uruguaia em um prato
O Tannat nasceu nos Pirineus franceses, nas zonas de Madiran e Irouléguy, e chegou ao Uruguai por imigrantes bascos no século XIX. Hoje o país é o único produtor no mundo com quantidades expressivas dessa variedade em relação à superfície total de seus vinhedos, com produção que supera inclusive a de seu lugar de origem. O resultado é um vinho de taninos maduros, estrutura aveludada e cor intensa — a bebida-símbolo do Uruguai.
Ao seu lado, o cordeiro. A carne ovina sempre fez parte da cozinha tradicional das estâncias e chácaras do campo uruguaio e ganhou espaço na alta gastronomia quando os chefs locais passaram a apresentá-la em preparos sofisticados. A gordura macia e o sabor profundo do cordeiro encontram nos taninos firmes do Tannat um contraponto preciso — e o cordeiro brasado ao Tannat tornou-se o prato-síntese do festival.
Um festival, seis territórios
O Tannat & Cordero não acontece em um único lugar: ele é um pretexto para percorrer o Uruguai vitivinícola, que se estende por seis regiões, cada uma com sua paisagem, seus destinos e seus próprios maridajes.
O coração de tudo é Canelones, principal região vitivinícola do país, onde se concentra mais de 60% das vinícolas e vinhedos uruguaios e onde o Tannat encontrou sua casa. Ali, entre circuitos de bodegas familiares e o turismo rural, está também o Museu da Uva e do Vinho, em Las Piedras. A poucos quilômetros, Montevidéu surpreende: embora associada ao turismo urbano, a capital guarda vinícolas em sua periferia rural, ideais para visitas de meio dia que unem cidade e campo.
A oeste, Colonia e Carmelo combinam vinho, patrimônio e paisagem às margens do Rio da Prata, com bodegas boutique onde a tradição vinícola convive com a queijeira — o maridaje de vinho e queijo é a assinatura da região. Já em Maldonado, a vizinhança de Punta del Este e os cenários serranos e oceânicos abrigam vinhos de alta gama e uma associação característica entre o vinho e o azeite de oliva.
Mais ao norte, Rivera oferece a perspectiva mais singular do país: solos e clima continentais, a referência vitivinícola de Cerro Chapeu e um enoturismo que se entrelaça com o patrimônio mineiro de Minas de Corrales e a Rota do Ouro. Completa o mapa San José, ao sul, onde o vinho se soma à ganadaria e às experiências de turismo rural.
O vinho como porta de entrada
Mais do que um festival gastronômico, o Tannat & Cordero é uma chave para entender o enoturismo uruguaio, em que o vinho raramente é o único atrativo: ele articula experiências que reúnem gastronomia, patrimônio, natureza e modos de vida do campo. Marcado pela forte presença de bodegas familiares — onde várias gerações participam da produção e recebem o visitante pessoalmente —, o país convida o viajante a conhecer formas de vida e de produção próprias de cada território.
Em um destino compacto, de distâncias curtas, o festival de junho é uma boa porta de entrada para descobrir o inverno uruguaio, de Canelones às serras de Rivera.



