O segundo dia da ProWine São Paulo terminou com um ritmo diferente daquele da abertura. Os primeiros contatos avançaram, reuniões ganharam novos capítulos e conversas iniciadas ontem começaram a produzir consequências. Ao longo do dia, ficou evidente que há mais em curso do que uma sucessão de negócios: uma comunidade profissional ganha corpo. Produtores, importadores, distribuidores, compradores, sommeliers, comunicadores e profissionais de diferentes áreas compartilharam conhecimento, percepções e desafios de um setor que ainda tem muito espaço para crescer no Brasil. E crescimento, aqui, não significa apenas vender mais. Passa por criar repertório, formar consumidores, multiplicar ocasiões de consumo e tornar o vinho mais presente na vida das pessoas. A PWSP aproxima os diferentes elos dessa cadeia e acelera relações que seguirão adiante quando os estandes forem desmontados. Ao fim deste segundo dia, fica uma percepção: cada negócio pode ter dois lados, mas um mercado só avança quando muita gente avança com ele.
O Brasil entra na disputa
Há uma razão econômica para tantos sotaques dividirem espaço na PWSP. O mercado brasileiro entrou com mais força no radar internacional, e os números da feira ajudam a enxergar esse interesse: entre 2025 e 2026, o total de expositores cresceu 9%, enquanto a presença de produtores estrangeiros avançou 40%. Portugal, Espanha, Itália, França, Chile e Argentina aumentaram suas representações, ao mesmo tempo que novos nomes desembarcaram em São Paulo procurando uma porta de entrada no país. O interesse encontra um setor que movimentou cerca de R$ 21,1 bilhões em 2025, viu o segmento super premium crescer perto de 15% e os espumantes alcançarem o recorde de 4,5 milhões de caixas comercializadas. Na outra ponta está um consumidor com repertório maior e mais origens, estilos e faixas de preço à disposição. Entre quem deseja entrar e quem procura novidades estão os compradores brasileiros, comparando propostas e escolhendo parte do que chegará ao mercado nos próximos meses. O que hoje ocupa uma mesa de degustação na PWSP pode, em pouco tempo, ocupar uma prateleira, uma adega ou a carta de um restaurante.
Champagne olha para o Brasil
Champagne carrega séculos de prestígio, mas ainda guarda novidades capazes de surpreender. Na pequena propriedade de Marion e Laurent Liébart, Arbane, Petit Meslier e Pinot Blanc — variedades hoje raras na região — continuam crescendo ao lado de Chardonnay, Pinot Noir e Meunier e integram uma cuvée elaborada com as sete castas históricas de Champagne. É com essa diversidade que a maison faz sua primeira viagem comercial à América do Sul e escolheu a PWSP para apresentar também o Les Sols Bruns Brut, seu primeiro rótulo orgânico. A chegada ajuda a contar um movimento maior: produtores familiares, pequenas maisons e projetos de identidade própria encontram no Brasil um mercado que desperta interesse e curiosidade. Para Marion e Laurent, os três dias em São Paulo têm ainda uma missão concreta: encontrar importadores e distribuidores e construir sua entrada no continente. É nessa aproximação que a PWSP funciona como propulsora: transforma o interesse pelo Brasil em contato, o contato em oportunidade e coloca diante do mercado brasileiro uma Champagne que vai além dos grandes nomes — menor em escala, rara em suas castas e disposta a encontrar novos caminhos por aqui.
O vinho fora do lugar-comum
O segundo dia do ProWine Forum pareceu ocupado por uma pergunta: o que vem depois? A resposta apareceu de muitas formas. Na Serra Gaúcha, a Cooperativa Vinícola Garibaldi experimenta novas cultivares e observa quais delas podem encontrar futuro no território; na Chapada Diamantina, a UVVA mostra como altitude, clima, solo e ciência estão desenhando outra expressão do vinho brasileiro. Até os hábitos de quem está do outro lado da mesa entraram na conversa, com uma discussão sobre como medicamentos como o Mounjaro e novos estilos de vida começam a repercutir nas adegas e nos restaurantes.
Houve espaço também para pensar tecnologia, rastreamento e perdas de estoques de alto valor e para descobrir como os coquetéis clássicos podem ganhar novas interpretações sem abandonar sua essência. Mas olhar adiante não significa esquecer o que veio antes. O Tejo voltou às suas uvas mais representativas, a Toscana colocou tradição e vanguarda frente a frente e Aurelio Montes percorreu vinte safras do Purple Angel para mostrar como um vinho também constrói sua identidade com o tempo. Entre passado, presente e futuro, o que vimos deixou uma impressão clara: o universo das bebidas não está parado esperando a próxima tendência. Ele já está experimentando o que poderá definir os próximos anos.
Obras de Poeta ganha novos versos
Há canções que terminam quando a música acaba. Outras continuam acompanhando aniversários, viagens, amores, separações e lembranças até já não pertencerem somente a quem as gravou. “Obras de Poeta”, uma das músicas marcantes da trajetória de Chitãozinho & Xororó, ganhou agora uma nova forma de permanecer. O título batiza a linha de vinhos assinada pela dupla, desenvolvida pela My Winery e lançada oficialmente na PWSP. É uma passagem curiosa: depois de mais de cinco décadas contando histórias pela música, Chitãozinho & Xororó transformam parte desse imaginário em algo que também pode ocupar a mesa. A coleção nasce brasileira e se divide em três momentos — Verso, de perfil mais leve e cotidiano; Tom, com maior estrutura e personalidade; e Alma, pensado para ocasiões especiais. Música e vinho talvez compartilhem essa capacidade de guardar tempo. Uma canção pode devolver alguém a um momento vivido muitos anos atrás; uma garrafa aberta entre família ou amigos também pode marcar uma lembrança que permanecerá depois do último gole.
Quem conta o vinho
A PWSP vai muito além do vinho na taça. A diversidade de expositores também passa por quem prova, avalia e acompanha de perto a evolução do setor. Referência no cenário latino-americano, o Guia Descorchados é expositor da edição 2026 e traz um amplo panorama da produção de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Peru e Uruguai, dos grandes nomes aos pequenos produtores artesanais. Publicado desde 1999, o guia degustou cerca de 3.800 rótulos para sua edição mais recente. Mais um exemplo de como diferentes elos do universo do vinho se encontram na maior feira do setor nas Américas.
Cachaça, clássica e contemporânea
A PWSP recebeu a etapa paulista do Cachaça Classics Cocktails, concurso que coloca a cachaça de alambique no centro de novas interpretações da coquetelaria. A própria trajetória da competição acompanha uma mudança de percepção sobre o destilado: depois de percorrer diferentes estados brasileiros e atravessar o Atlântico, com etapas na Europa, o projeto encontrou na feira um espaço para aproximar bartenders, produtores e profissionais do mercado. Nas mãos dos competidores, a cachaça ganhou criações autorais que exploraram sua diversidade de estilos e possibilidades para além das receitas mais conhecidas. Em uma feira marcada pela descoberta de novas origens, o movimento apontou também para algo que está muito perto de nós: redescobrir um destilado profundamente brasileiro. Ao final da etapa, a bartender Rosângela Ísis conquistou o primeiro lugar.
De olho em novos mercados
Durante a PWSP, o Wines of Brazil participa do Exporta Mais Brasil, ação realizada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), que promove encontros entre empresas brasileiras e compradores internacionais. As rodadas reúnem compradores de oito mercados: Reino Unido, China, Suécia, Países Baixos, Rússia, Angola, México e Paraguai. Os perfis dos participantes mostram diferentes oportunidades para os produtos brasileiros, com interesses que incluem vinhos, espumantes, bebidas artesanais, pequenos produtores, produtos premium e suco de uva. O Wines of Brazil é um projeto setorial desenvolvido pelo Consevitis-RS em parceria com a ApexBrasil e busca aproximar empresas brasileiras de potenciais importadores e distribuidores e ampliar as oportunidades de negócios internacionais.
A ação ocorre em um momento de expansão das exportações brasileiras de vinhos e espumantes. No primeiro semestre de 2026, os embarques somaram US$ 6,79 milhões, alta de 23,73% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o número de mercados de destino chegou a 79 países. O movimento reforça a estratégia de diversificação de mercados e de aproximação com compradores internacionais desenvolvida pelo Wines of Brazil.
Uma curadoria em movimento
Em uma feira onde quase todo mundo está de passagem, a Épice decidiu criar um lugar para ficar um pouco mais. A “Casa da Épice” nasceu com essa proposta: receber clientes, parceiros e produtores em torno de conversas e garrafas escolhidas para contar diferentes histórias de sua curadoria. Na PWSP 2026, são 12 marcas vindas da Europa e da América do Sul, acompanhadas por produtores e executivos que atravessaram o Atlântico e os Andes para estar em São Paulo. Entre elas, quatro novidades ajudam a mostrar como o consumo também está mudando: o chileno Viña Tarapacá Etiqueta Dorada; o Mateus Vinho Verde, criado pela Sogrape exclusivamente para o mercado brasileiro; o Catarina No Alcohol, da Bacalhôa, que entra no crescente universo dos vinhos sem álcool; e o Louis Roederer Collection 246, nova edição da histórica maison de Champagne.
O passado ainda fermenta
Há vinhos que pedem alguns minutos de atenção; outros carregam séculos dentro da garrafa. Na PWSP, a Monte Dictis propõe uma dessas raras viagens em que o tempo também entra na degustação. O percurso começa na Grécia, passa pelos vinhos doces de Patras e pela Santorini vulcânica até chegar ao Chipre e ao Commandaria, cuja história remonta a cerca de 800 a.C. — tempo em que Hesíodo já descrevia uvas deixadas ao sol antes da vinificação, técnica que atravessou quase três milênios e permanece viva nas encostas do Troodos. Produzido com as variedades Xynisteri e Mavro e amadurecido pelo método Mana, no qual as barricas nunca são completamente esvaziadas, o vinho guarda literalmente algo das gerações que vieram antes. Sua apresentação na feira ganhou ainda a presença do embaixador do Chipre no Brasil, Dr. Vasilios Philippou, lembrando que algumas garrafas carregam mais do que aromas e sabores: carregam a memória de um povo.

