Pesquisa de chef local e especialistas revela sabores quase esquecidos da região e impulsiona o turismo gastronômico no litoral norte catarinense
Joinville, em Santa Catarina, vem se consolidando como um destino onde natureza e gastronomia caminham lado a lado — e onde ingredientes quase esquecidos ganham novo protagonismo à mesa. Entre a serra, o mar e o mangue, chefs locais têm se dedicado a resgatar insumos que fazem parte da história alimentar da região, mas que foram sendo deixados de lado com o avanço da globalização.
À frente desse movimento está o chef Willian Vieira, do restaurante O Guará Cozinha, localizado na Vigoreli, uma das áreas mais turísticas da cidade. Entusiasta da biodiversidade local, ele lidera pesquisas e experiências que conectam visitantes à origem dos ingredientes — muitas vezes coletados diretamente na natureza.
“Existe uma riqueza enorme entre a serra, o mar e o mangue que não chega aos supermercados. São ingredientes que fazem parte da nossa história, mas que foram sendo esquecidos ao longo do tempo. Nosso trabalho é resgatar isso e mostrar o valor que têm”, explica o chef.
Muitos desses ingredientes têm origem na alimentação dos antigos colonos da região, que utilizavam o que cultivavam ou coletavam em momentos de pouca fartura. Raízes, tubérculos e outros produtos artesanais hoje mais raros.
Entre eles está o mangarito, uma espécie de tubérculo semelhante à batata, além de inhames e outros alimentos que acabaram “soterrados” por uma alimentação cada vez mais globalizada.
Para resgatar esses sabores, Vieira percorreu a região em busca de antigos produtores e famílias que ainda mantêm tradições artesanais, especialmente na serra, onde produtos como queijos de cabra — similares ao boursin — ainda sobrevivem de forma limitada.
Caça ao porcini: experiência que une turismo e gastronomia
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa conexão entre território e culinária é o cogumelo porcini, iguaria de origem italiana que hoje também pode ser encontrada no Sul do Brasil.
Com apoio do pesquisador Marcelo Sulzbacher, especialista no tema, o chef promove expedições na Serra Dona Francisca, a cerca de 30 minutos de Joinville, onde grupos aprendem a identificar e coletar cogumelos silvestres em meio a plantações de pinus.
A experiência — que já reuniu cerca de 20 participantes por edição — mistura turismo, educação ambiental e gastronomia. Após a coleta, os ingredientes são transformados em pratos como risotos, molhos, saladas e recheios.
A iniciativa deu origem ao Festival do Porcini, realizado anualmente na cidade, reunindo chefs convidados de diferentes regiões para participar da colheita e da criação dos pratos. A próxima edição, prevista para 2026, deve acontecer entre o fim de maio e o início de julho, período ideal para o surgimento do cogumelo, quando as temperaturas se mantêm entre 0°C e 15°C e há presença de umidade.
“Já chegamos a coletar cerca de meia tonelada de porcini em uma única temporada. É um ingrediente que depende totalmente das condições da natureza, o que torna a experiência ainda mais especial”, destaca Vieira.
Sabores do mar e do mangue

Se na serra os destaques são os cogumelos e os queijos artesanais, no litoral e nos manguezais a riqueza aparece em outros formatos. Ingredientes como caranguejo, berbigão (vôngole), e um tipo de marisco semelhante ao sururu, são coletados diariamente por comunidades locais.
Essa tradição pesqueira se mantém viva graças a famílias que dependem diretamente da natureza e fornecem insumos frescos para a gastronomia da região. Além dos frutos do mar, o chef também se dedica à pesquisa de algas e plantas costeiras, em parceria com universidades como a Univille. Entre os destaques está a chamada “alface do mar”, utilizada desidratada em preparações que vão de infusões a sobremesas, como sorvetes.
Gastronomia como experiência de destino
Ao unir pesquisa, resgate cultural e experiências imersivas, Joinville passa a oferecer ao visitante muito mais do que uma boa refeição — mas uma verdadeira conexão com o território. Seja na serra, em meio à caça de cogumelos, ou no mangue, acompanhando o ritmo da maré, a gastronomia local se transforma em um convite para explorar sabores únicos, moldados pela natureza e pela história.
Na opinião de Vieira, quando se entende de onde vem o alimento, a experiência muda completamente. “Não é só sobre comer, é sobre viver aquele lugar”, destaca o chef, que resume o objetivo do seu trabalho de dez anos à frente das pesquisas na busca de enaltecer e difundir os diferenciais da cozinha joinvilense.
Para saber mais sobre a variedade da gastronomia de Joinville acesse: https://www.visitejoinville.com.br/restaurantes



