Cortejo do Divino Espírito Santo, em Itu (Foto: Renata Guarnieri)
Setur-SP destaca procissões, cantorias e devoção que se misturam à gastronomia caipira, muita música e danças típicas num dos eventos mais antigos do Brasil
Em meados de maio, haverá celebrações da tradicional Festa do Divino Espírito Santo em vários destinos turísticos paulistas, a começar por Mogi das Cruzes, no Alto Tietê e São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, duas das maiores e mais conhecidas do interior de São Paulo. As datas variam muito de cidade para cidade, mas o que permanece é a fé e devoção ao Divino, as missas, procissões, novenas, quermesses, cortejos, alvoradas, o Império do Divino, a queima das fitas, as danças trazidas dos Açores, os bonecões, muita música e a distribuição de alimentos típicos. Uma festa completa e com forte participação popular.
Para comemorar este evento de mais de 400 anos, que mistura temas folclóricos e católicos, a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP) separou seis destinos onde a regra é fazer reservas antecipadas em hospedagem, seguir a programação e buscar o melhor lugar nas calçadas e ruas para ver o cortejo passar.
A seguir, a letra da canção “Bandeira do Divino”, de Ivan Lins e Vitor Martins, dá o tom.
Os devotos do Divino
Vão abrir sua morada
Pra bandeira do menino
Ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai
MOGI DAS CRUZES
Maio de 1613, em ata da Câmara da então “Villa de Sant’Anna de Mogy Mirim”. Trata-se do primeiro registro da Festa do Divino em Mogi das Cruzes, que fica a 61 km da capital. São 413 anos de tradição de uma das mais antigas festas do Divino Espírito Santo do interior paulista, onde mais de 50 mil pessoas acompanham os cortejos. Em Mogi, a Festa do Divino de 2026 acontece entre 14 a 24 de maio, com eventos como o Império do Divino, Alvorada e Procissão de Pentecostes e a Entrada dos Palmitos, com carros de bois decorados e costumes que representam a colheita e a fartura, onde fé e cultura se entrelaçam.
Deus nos salve esse devoto
Pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede
Dando pão a quem tem fome, ai, ai
SÃO LUIZ DO PARAITINGA
A 176 km de São Paulo, no Vale do Paraíba, está a charmosa São Luiz do Paraitinga, na rodovia Oswaldo Cruz (SP-125), entre Taubaté e Ubatuba. Ali, a Festa do Divino é o segundo grande evento do ano, fora o Carnaval. As pousadas da cidade ficam tomadas de gente, muitas delas fazem reserva com um ano de antecedência para os eventos. Em 2026, as celebrações estão marcadas para 15 a 24 de maio. Além da milenar dança das fitas (de origem açoriana), dos cortejos, dos bonecões Maria Angu e João Paulino, há a distribuição gratuita do afogado, um ensopado de carne bovina (acém), batata e farinha de mandioca feito em caldeirões, típico da culinária dos tropeiros do século XIX, itens que reforçam laços da comunidade com sua história e sua devoção centenária.
A bandeira acredita
Que a semente seja tanta
Que essa mesa seja farta
Que essa casa seja santa, ai, ai
TIETÊ
A Festa do Divino Espírito Santo, em Tietê, a 145 km da capital, é uma das mais antigas tradições religiosas do interior paulista, sendo a única a ser realizada de forma fluvial em todo o Estado de São Paulo. Surgida em 1830, como promessa ao Divino para livrar a cidade de uma epidemia de maleita, a celebração acontece no último sábado do ano, com pousos nas casas e os Almoços do Divino, verdadeiras tradições locais, nas semanas anteriores ao evento principal, o Encontro das Canoas, no rio Tietê. Na procissão fluvial, as embarcações enfeitadas com fiéis e a imagem do Divino, cruzam-se sob a Ponte do Arco com os remos erguidos, em frente à Praça da Pomba, no Bairro Bela Vista, um verdadeiro espetáculo de beleza, tradição e fé para encher os olhos dos turistas.
Que o perdão seja sagrado
Que a fé seja infinita
Que o homem seja livre
Que a justiça sobreviva, ai, ai
ITU
Em 2026, a Festa do Divino Espírito Santo em Itu terá o seu ponto alto no Desfile do Divino, a ser realizado no dia 23 de maio. Inclui cortejo, cerimônias religiosas e atividades no Centro Histórico de Itu. O desfile reúne fiéis e a bandeira do Divino, iniciando na Rua Barão do Rio Branco, percorrendo as ruas centrais até a Praça Padre Miguel, para a benção final, diante da Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária. Durante o desfile, há a participação de carros de boi, cavaleiros, violeiros e a corte imperial com as alas vestidas com as cores vermelho e branco e são distribuídos cerca de 3 mil pães abençoados e mudas de plantas, em um gesto de partilha e esperança. O evento atrai turistas e moradores, para os cortejos.
Assim como os três reis magos
Que seguiram a estrela guia
A bandeira segue em frente
Atrás de melhores dias, ai, ai
SOROCABA
Sorocaba, a 104 km da capital, foi durante mais de século muito mais importante que São Paulo. Na cidade, existe uma capela dedicada ao Espírito Santo, de arquitetura barroca e construída no final do século XIX. Os bandeirantes e, mais tarde, os tropeiros dedicavam, naquele local, uma oração à Terceira Pessoa da Trindade, pedindo iluminação e bençãos na viagem. A paróquia passou a dedicar anualmente uma festa que se inicia com a visita da bandeira do Divino, representando a descida dos dons aos apóstolos e a Maria, ao repique dos sinos da capela. Com a novena e Pentecostes, missa, cortejo e coroação, a Festa do Divino em Sorocaba tem final no domingo dia 24 de maio.
No estandarte vai escrito
Que ele voltará de novo
Que o rei será bendito
Ele nascerá do povo, ai, ai
CUNHA
Com mais de 200 anos de tradição, a Festa do Divino Espírito Santo em Cunha ocorre no terceiro domingo de julho, na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, na Praça Cônego Siqueira. Em 2026, as festividades estão previstas para acontecer entre 10 e 19 de julho, com a alvorada, a procissão das bandeiras, as missas solenes e um tradicional almoço gratuito, oferecido à população, na Casa da Festa. Todo o simbolismo da bandeira vermelha com a pomba branca, as fitas coloridas (dons do Espírito Santo) e a elevação do mastro celebram a fé e a gratidão pela colheita, especialmente a do milho verde, produção agrícola de forte tradição de Cunha, localizada a 224 km de São Paulo.
AS ORIGENS DO DIVINO
Comemorada 50 dias após a Páscoa para celebrar a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e Maria, a Festa do Divino Espírito Santo (ou Pentecostes) é um dos eventos mais tradicionais do catolicismo popular brasileiro, marcando o encerramento do tempo pascal. A Festa foi introduzida no Brasil pelos açorianos, tem raízes medievais e é associada à promessa da Rainha Santa Isabel, de Portugal (1271-1336), celebrando a paz e a união.
Nas variações da Festa do Divino, nos dois lados do Atlântico, os eventos incluem missas, procissões, alvoradas com bandas de música, danças das fitas (de origem medieval, com passagem pelos Açores) cortejos imperiais, desfile de bonecões, folias do Divino, distribuição de pães ou de refeições (como o afogado, em São Luiz do Paraitinga) e apresentações folclóricas como congadas e cavalhadas. Em geral, para a Festa do Divino são contados dez dias de eventos, até a celebração final, em Pentecostes (que ocorre no sétimo domingo após a Páscoa, ressignificando uma festividade judaica, o Shavuot).
OUTRAS FESTAS DO DIVINO EM SP
Itanhaém (a 115 km da capital), no Litoral Sul de São Paulo, celebra a sua Festa do Divino há mais de 300 anos, com programação de eventos como a Folia do Divino no Rio Acima, a Alvorada Festiva, a Noite da Soca, Abertura do Império, Erguida do Mastro, Missa Solene e a Procissão do Divino Espírito Santo, até 31 de maio. Por sua vez, em Anhembi (a 220 km de São Paulo), com tradição de um século e meio, a Festa do Divino é o maior evento turístico religioso da cidade e anualmente cerca de 60 mil pessoas enchem as ruas em atos de fé e devoção ao Espírito Santo.




