Vozes negras: Turismo paulista homenageia cidadãos no Dia Internacional da Pessoa Afrodescendente

Solange, Maria de Fátima e Carlos Humberto são profissionais negros que trabalham ativamente com afroturismo (Foto: Divulgação)

Para comemorar a data, a Setur-SP ouviu três profissionais negros do setor turístico, que compartilham um pouco de suas trajetórias

“Assisti a uma palestra recentemente e uma frase me marcou: Nós somos a realização do sonho dos nossos ancestrais”, conta Solange Barbosa, CEO e fundadora da Rota da Liberdade, agência de viagens de Taubaté focada no afroturismo. Solange, ou Sol, como também é carinhosamente chamada, trabalha no setor turístico há mais de 25 anos, além de ser uma das pioneiras no turismo ligado à cultura afro.

Felizmente, Sol não está sozinha. Neste domingo, 31 de agosto, quando é comemorado o Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes, estabelecido pela ONU em 2020 para valorizar as contribuições da diáspora africana para o mundo e combater as desigualdades sociais, a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP) homenageia os cidadãos afrodescendentes, trazendo três relatos inspiradores. Sol, Maria de Fátima e Carlos Humberto são profissionais negros que transformam o turismo paulista e a sociedade brasileira. Confira:

Acreditar em si mesmo(a) e honrar a ancestralidade

Solange Barbosa, a Sol, tem 61 anos, é viúva, mãe de quatro filhos e avó de oito netos. Sua paixão pelo turismo começou em 1999, quando integrou a 1ª turma de ensino técnico em turismo na escola João Gomes de Araújo, em Pindamonhangaba, e se formou no ano seguinte. Sempre foi apaixonada pelo desenvolvimento de projetos, e em 2003, quando entrou na faculdade de História, conheceu um projeto da França chamado ‘Rota Turística das Abolições’, que passava pelos cenários onde aconteceu o processo abolicionista no país. 

“Pensei: imagina em São Paulo, que temos toda a história da abolição e toda a riqueza da cultura negra?! Então, em 2006 elaborei e lancei a “Rota da Liberdade”, agência de turismo com sede em Taubaté que realiza roteiros pelo Estado de São Paulo em locais que valorizam a história e o legado do povo negro”, lembra a empreendedora.

Quando questionada sobre o que significa, para ela, ser uma pessoa afrodescendente, Sol é enfática: “significa tudo, tudo de bom! Estou e sou agradecida por ser afrodescendente! É preciso entender que os negros têm direito à vida, à cidadania. Infelizmente, muitas vezes, esse direito é negado. Além disso, algumas pessoas, quando pensam nos negros, pensam na dor, na escravidão, mas o povo africano está no mundo desde sempre. Precisamos ser reconhecidos pelo nosso valor cultural, pelo nosso conhecimento, nossas tecnologias”. 

Serviço público, orgulho de ser afrodescendente e trabalhar para a continuação

Desde pequena, Maria de Fátima de Oliveira Gonzaga se interessou por política. Seus pais eram muito ativos, principalmente na época das eleições, e ela sempre os acompanhava quando iam votar. “No caminho, eu sempre pegava vários daqueles papeizinhos, tentando entender qual era a minha participação naquilo. Principalmente: ‘Por quê crianças não votam (risos)?’ ‘E os adultos, votam para quê?’ Eu sempre fui muito questionadora, principalmente nesse sentido. Então, na época da escola, quando eu comecei a entender minha participação naquilo, eu falei: acho que quero participar de tudo isso. Hoje, consciente, mas naquela época, de forma inconsciente.”

O tempo passou, Maria de Fátima finalizou o colégio e antes de ingressar em um curso de graduação, queria se conhecer, entender quem era. Mas, enquanto isso, foi em busca do primeiro emprego. Então, depois de distribuir vários currículos, uma amiga da família a orientou: “Tenta um concurso público, por que você não faz? Eu acho que você tem várias habilidades que se enquadram dentro do serviço público, mas comece com escrituração. Faz o de escriturário, na minha opinião”, lembrou. 

Determinada, Maria de Fátima fez e passou. “Mas eu fiz com 17 anos, e eu passei como um dos 20 primeiros classificados. Porém, eu não sabia, porque era o meu primeiro contato com concurso público, que precisava ter 18 anos para ser contratada. O concurso foi em final de maio, e meu aniversário é em setembro. Começaram a chamar e quando foi na minha vez, parou. Completei 18 anos e três dias depois, me chamaram. Então, o serviço público me chamou. Hoje eu entendo como missão. Ser servidora pública, é para mim, uma grande honra.”

Depois que entrou no serviço público, ela trabalhou por 15 anos dentro de uma secretaria de Planejamento e Meio Ambiente, mas não estava satisfeita. “Como amante do serviço público, eu achei que ia sempre impactar grandes números e aquilo não estava me preenchendo. Porém, como sou formada em Engenharia Cosmética, eu pensei em me aventurar nessa área. Então, eu conversei com a prefeita e falei: ‘Prefeita, me desculpa, mas estou entregando realmente ‘feijão com arroz’, e não é isso que eu quero

Foi aí que a prefeita percebeu que Maria estava desencantada e teve uma ideia: “Maria, eu preciso de você. E em outro setor, o que você acha?”

“Não sei, eu respondi”, lembra Maria de Fátima. Mas a notícia se espalhou pela prefeitura e os setores começaram a convidá-la. “Foi quando o diretor de turismo da secretaria de Indústria, Comércio e Agricultura chegou com uma demanda de um portal turístico e eu fazia os cadastramentos todos dos convênios federais. Eu fui ajudando-o e quando eu vi, estava fazendo projetos com ele. Topei o desafio e foi quase um amor à primeira-vista, em uma reunião de COMTUR (Conselho de Turismo”. Hoje, sou formada em Turismo e agora exalo turismo com muito amor”, conta.

Atualmente, Maria de Fátima é Secretária Adjunta de Cultura e Turismo em Caçapava. E ela deixa seu recado para essa data: “Precisamos ter orgulho das nossas origens, falar mais amor do que de dor, e celebrar mesmo. Então, celebrar dia de Teresa de Benguela, que foi agora, dia 20 de julho; celebrar essa data, 31 de agosto, que também é muito importante. Além disso, acho que é pensar: ‘quem veio antes? O que eu estou fazendo para os que estão vindo?” “Então, primeiro orgulho e depois continuação, para que os próximos ergam essa bandeira de muito orgulho e amor”, finaliza.

Ser afrodescendente é ser descendente da mãe da vida, é ser herdeiro(a) de grandes culturas

A busca por conhecimento, direitos humanos igualitários e empreendedorismo são três grandes pilares na vida de Carlos Humberto. Profissional com mais de 22 anos de atuação nacional e internacional na promoção dos Direitos Humanos, com foco em igualdade racial, políticas públicas e combate ao racismo, Carlos foi bolsista da Fulbright e Rockefeller Center for Latin American Studies, em Harvard, e da PUC-Rio. Além de se dedicar à vida acadêmica como pesquisador, Carlos também é fundador e CEO da Diaspora. Black, plataforma global de tecnologia que promove experiências de turismo, educação e cultura afrocentrada em mais de 18 países. Ele também lidera estratégias de inovação, expansão e impacto com foco em justiça racial e economia criativa.

Para Carlos Humberto, “ser afrodescendente significa ser herdeiro de grandes legados, conhecimentos, práticas e culturas, que estão relacionadas diretamente ao desenvolvimento da vida. Quando se fala de afrodescendente, significa ser descendente de um continente em que ficou comprovado seu papel na história da humanidade, quando se identifica no primeiro fóssil de Lucy a grande referência do desenvolvimento e surgimento da vida”, explica o empresário. “Então, ser afrodescendente é ser descendente da mãe da vida, dessas histórias, memórias e ancestralidades que permeiam a nossa existência e que nos trazem a responsabilidade de sermos a continuidade dessa história”, complementa.

Para ele, a importância de ser uma pessoa afrodescendente no turismo pode se dar de diferentes maneiras, principalmente quando esta pessoa afrodescendente compreende a responsabilidade e o poder do seu papel. E destaca a importância de ter profissionais que compreendem e que trabalham com o afroturismo, principalmente pela possibilidade de produzir um turismo antirracista. “Porque uma vez que você conhece um lugar, pessoas, histórias e narrativas, essas narrativas, esses lugares, esses cheiros e sabores jamais saem de dentro de você. E a partir daí, você leva a valorização, o conhecimento, desconstrução e promove olhares, fortalecimento e a participação negra inclusiva dentro desse mercado turístico”. 

Afroturismo e matrizes africanas em SP

Com o objetivo de valorizar a população afrodescendente, que corresponde a 41% no Estado de São Paulo de acordo com levantamento do Guia Negro e do IBGE, a Setur-SP lançou recentemente o Guia Turístico Religioso de Matrizes Africanas e Indígenas. O conteúdo nasceu a fim de reconhecer e dar visibilidade a espaços de resistência, fé e ancestralidade que enriquecem a diversidade cultural do nosso estado. Segundo levantamento do IBGE, 55.295 indígenas vivem no Estado de São Paulo. 

A partir de um mapeamento inédito de 35 casas, templos, institutos e centros culturais de religiões de matrizes africanas e indígenas, uma equipe técnica selecionou 17 municípios onde é possível reviver rituais, compreender saberes tradicionais e práticas de cuidado coletivo. A publicação é uma parceria da Setur-SP com a Secretaria da Justiça e Cidadania (SJC), com apoio do Fórum Inter-religioso do Estado de São Paulo. 

Além disso, em 2024, a Secretaria também lançou os Roteiros de Afroturismo, com 10 lugares no Estado que preservam a cultura e o legado do povo negro e realizam atividades ligadas ao afroturismo, como oficinas temáticas, visitas à lugares históricos, entre outros. Ainda, a Setur-SP mantém um Grupo de Trabalho de Afroturismo (GT), composto por agentes de viagem, guias de turismo, empresários e autoridades do poder público e privado para debater ações e soluções para fomentar o afroturismo em São Paulo e tornar o turismo paulista mais plural e inclusivo. 

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Fonte de dados meteorológicos: wetterlang.de

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