Crédito: Divulgação Visite Noronha
Em um território insular e ambientalmente sensível, estratégia passa por qualificar a experiência, ampliar o impacto econômico de cada viagem e distribuir os benefícios do turismo por toda a cadeia local
Mais turistas significam necessariamente um turismo melhor? Em Fernando de Noronha, a resposta passa cada vez menos pelo volume e mais pelo valor gerado por cada visitante. Em um arquipélago com território limitado, ecossistemas protegidos e desafios logísticos próprios de uma ilha, o desenvolvimento do turismo exige uma equação diferente daquela adotada por destinos capazes de crescer continuamente em número de viajantes.
O movimento coloca em evidência um conceito que ganha relevância no setor: o turismo de valor. Em vez de medir o desempenho de um destino apenas pelo fluxo de visitantes, a lógica considera indicadores como permanência, gasto médio, qualidade da experiência e capacidade de fazer com que os recursos movimentados pelo turista circulem por diferentes elos da economia local.
Em Fernando de Noronha, essa discussão ganha contornos ainda mais importantes. A própria legislação do arquipélago prevê que a atividade turística seja planejada considerando as limitações geográficas, logísticas, ambientais e de infraestrutura locais. A Taxa de Preservação Ambiental (TPA), por exemplo, é calculada de acordo com o período de permanência do visitante, e sua receita deve ser destinada à preservação dos ecossistemas, manutenção das condições de acesso aos atrativos e melhorias para moradores e turistas.
Para Hayrton Almeida, presidente do Fernando de Noronha Convention & Visitors Bureau (Visite Noronha), o futuro do destino está diretamente relacionado à capacidade de gerar mais qualidade, e não simplesmente mais volume. “Fernando de Noronha tem características que exigem uma visão diferente sobre o crescimento turístico. Nosso objetivo não deve ser simplesmente receber cada vez mais pessoas, mas fazer com que cada visitante tenha uma experiência melhor, permaneça mais tempo, conheça diferentes serviços e experiências e, consequentemente, movimente de maneira mais ampla a economia da ilha. Quando qualificamos o turismo, conseguimos gerar valor para o visitante, para as empresas e para quem vive no destino.”
Uma viagem que movimenta uma cadeia inteira
O impacto econômico de um turista em Noronha começa antes mesmo de sua chegada e se espalha por uma extensa cadeia de serviços durante a permanência na ilha. Além da hospedagem, entram nessa conta restaurantes, bares, receptivos, passeios de barco, mergulho, guias, transfers, comércio, artesanato, experiências de bem-estar e outros serviços.
Nesse contexto, aumentar o valor gerado pelo turismo não significa necessariamente tornar o destino mais caro, mas ampliar a quantidade e a qualidade das experiências consumidas pelo visitante e fazer com que esse gasto alcance mais negócios locais.
Um viajante que permanece mais tempo e diversifica seu roteiro tende a movimentar diferentes segmentos da economia. É justamente essa circulação que transforma a atividade turística em renda e oportunidades para empresas, profissionais e prestadores de serviços do arquipélago.
“Quando conseguimos fazer com que o visitante descubra que Noronha é muito mais do que suas praias mais famosas, abrimos uma série de possibilidades. Ele pode mergulhar, fazer passeios, experimentar a gastronomia local, conhecer projetos ambientais, consumir produtos da ilha e viver experiências diferentes ao longo da viagem. Isso aumenta a percepção de valor do destino e faz com que os benefícios econômicos do turismo sejam distribuídos por uma cadeia muito maior”, acrescenta Hayrton.
Qualidade passa a ser indicador de competitividade
A estratégia também coloca a qualificação da oferta turística no centro da discussão. Atendimento, hospitalidade, infraestrutura, segurança, informação e profissionalização dos serviços passam a ter impacto direto não apenas na satisfação do viajante, mas na própria competitividade econômica do destino.
O tema já aparece na gestão das áreas protegidas. Em 2025, o ICMBio avançou na adoção de instrumentos voltados à qualificação da visitação e melhoria da experiência dos visitantes nas unidades de conservação federais. No Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, há pesquisas periódicas de satisfação dos visitantes, com levantamentos realizados também em 2025.
Ao mesmo tempo, investimentos recentes ampliam a capacidade de oferecer uma experiência mais qualificada desde a chegada. Inaugurado em maio deste ano, o novo terminal do Aeroporto de Fernando de Noronha recebeu cerca de R$ 63 milhões em investimento privado, passou de aproximadamente mil para mais de 2,8 mil metros quadrados e ganhou melhorias em áreas como check-in, embarque, inspeção de segurança e restituição de bagagens. O aeroporto movimentou mais de 376 mil passageiros em 2025, considerando embarques e desembarques.
Trade como parte da estratégia
Nesse cenário, o Visite Noronha atua para aproximar os diferentes segmentos da cadeia turística, qualificar a promoção do destino e ampliar o relacionamento com agentes de viagens, operadores, imprensa e outros mercados emissores.
A estratégia passa por ações de capacitação, participação em feiras, roadshows, relacionamento com o trade e promoção dos produtos e experiências oferecidos pelas empresas da ilha. A proposta é fazer com que a comercialização de Noronha também evolua: menos baseada exclusivamente na imagem de suas praias e mais na diversidade de experiências que justificam uma viagem mais completa ao arquipélago.
Para Hayrton, esse movimento representa uma mudança importante na maneira de avaliar o sucesso turístico de Fernando de Noronha. “Durante muito tempo, o turismo brasileiro celebrou principalmente o número de visitantes. Claro que o fluxo continua sendo um indicador importante, mas, para Noronha, precisamos olhar além. Quanto tempo esse turista fica? Quantas experiências ele vive? Quantos negócios são beneficiados por sua viagem? Como ele avalia o destino e com que percepção retorna para casa? É esse conjunto de indicadores que pode nos mostrar se estamos crescendo de maneira saudável.”


