Uma rua, muitas vidas e meses de trabalho para fazer o Natal acontecer

Rua Iluminada Familia Moletta 2025. Foto: Antonio More

Entre obras, provas da faculdade e o cuidado com a horta, moradores da Rua Iluminada conciliam suas rotinas com a preparação do espetáculo que recebe milhares de visitantes no Umbará, em Curitiba

Enquanto os visitantes percorrem os cenários da Rua Iluminada da Família Moletta, em Curitiba, Eduardo Moletta pode estar no quarto, concentrado nos livros de odontologia. Do lado de fora, o Natal ocupa as casas, reúne famílias e transforma o quintal em atração. Do lado de dentro, a próxima prova da faculdade continua marcada no calendário.

“Tem dias, em que a rua já está aberta à visitação, que me fecho no quarto para estudar para prova, e esqueço completamente que existe Natal no quintal de casa”, conta Eduardo, que participa da organização do evento e divide o tempo entre os preparativos e a graduação.

A cena revela uma parte pouco conhecida do passeio que atrai milhares de pessoas ao bairro Umbará todos os anos. Por trás das luzes, dos personagens e dos espaços para fotografias, há uma rua habitada por pessoas que continuam trabalhando, estudando e cuidando de suas casas. Mais de 30 integrantes da família convivem com um Natal que ocupa vários meses do ano, mas precisa encontrar espaço entre compromissos profissionais e pessoais.

Para quem visita a atração em novembro ou dezembro, a experiência começa quando as luzes se acendem. Para os Moletta, começa em março, com as primeiras discussões sobre o tema e o conceito que vão orientar a temporada. A partir dessas escolhas, a família planeja como integrar as casas, distribuir os cenários e construir uma identidade para todo o percurso.

Quem retorna a cada edição reconhece esse cuidado. As fachadas fazem parte de uma proposta conjunta, pensada para que a rua conte uma história. Até chegar à noite de abertura, essa ideia precisa se transformar em projetos, estruturas, instalações e muitos meses de trabalho.

Entre a engenharia e o Natal

Um dos responsáveis por fazer os planos saírem do papel é Lucas Moletta. Engenheiro civil e integrante da organização, ele acompanha os projetos e as construções da Rua Iluminada enquanto mantém sua atuação em obras pela cidade.

O calendário natalino se soma à agenda profissional. As intervenções na propriedade exigem planejamento e acompanhamento, assim como os demais trabalhos de engenharia. A diferença está na relação com o lugar: ali, Lucas também ajuda a construir uma tradição da própria família.  “Não chega a ser um trabalho, pois fazemos isso pois amamos o Natal. Virou um negócio, pois a rua se mantém dos ingressos vendidos. Mas não podemos esquecer do nosso dia a dia e das nossas prioridades”, afirma.

A fala ajuda a compreender como a atração cresceu. O envolvimento afetivo permanece, ao mesmo tempo que a dimensão do evento exige organização, investimento e contratação de profissionais. Segundo a família, cerca de 200 oportunidades de trabalho diretas e indiretas são geradas entre setembro e janeiro, considerando a preparação e a realização da temporada.

Os familiares planejam, executam e acompanham o espetáculo, com o apoio das equipes contratadas. O resultado que o visitante encontra reúne tanto o trabalho visível durante o passeio quanto aquele realizado nos meses em que a rua ainda está sendo preparada.

Atrás dos cenários, uma horta e vinho de produção própria

Outra rotina acontece atrás da casa de Antonio Vani Moletta, ou Tio Ni, como ele é carinhosamente chamado. Um dos precursores da Rua Iluminada, ele participa intensamente da organização, mas também dedica tempo ao cultivo de uma horta farta.

Nesse espaço, o calendário segue o ritmo da terra. Há pêssegos, uvas e até a produção do próprio vinho nos bastidores da atração. É uma paisagem que muitos visitantes nem imaginam encontrar ao passar pelos cenários natalinos.

O cultivo, os estudos de Eduardo e as obras acompanhadas por Lucas ajudam a mostrar a diversidade de uma família que reúne contadores, estudantes, engenheiros, dentistas e professores. Cada um participa da tradição sem deixar de lado a profissão e os compromissos particulares.

Durante a temporada, essas duas dimensões se encontram diariamente. A rua recebe o público, mas continua sendo o endereço da família. A casa pode integrar um cenário e, ao mesmo tempo, abrigar alguém que precisa estudar, descansar ou se preparar para o trabalho do dia seguinte.

É essa convivência que dá uma característica própria à Rua Iluminada: o passeio acontece em um lugar onde a vida familiar permanece em movimento.

Uma brincadeira que ganhou dimensão de espetáculo

A história começou em 1996, com os primeiros enfeites luminosos instalados na propriedade onde viviam Brígida e Irineu Moletta com seus sete filhos. A decoração feita pela família chamou a atenção de quem passava pelo bairro e, aos poucos, atraiu visitantes.

A iniciativa foi interrompida em 2002 e retomada em 2016. Em 2023, passou a integrar a programação oficial de Natal de Curitiba. O crescimento ampliou o público e também a responsabilidade de preparar uma experiência que se renova a cada ano.

Segundo a organização, a temporada 2025/2026 recebeu aproximadamente 136 mil visitantes pagantes, ante cerca de 120 mil na edição anterior. Para a família, esse movimento representa meses de dedicação antes da abertura e uma rotina intensa durante o funcionamento.

Os ingressos ajudam a manter a atração. Já o planejamento busca dar unidade ao conjunto: cada casa participa da decoração, enquanto os cenários, as atrações e as opções gastronômicas compõem o percurso.

O próximo Natal já está em construção

Com abertura prevista para 14 de novembro, a temporada 2026/2027 terá entre as novidades a ampliação do castelo, que ganhará novas torres. A iluminação com tecnologia RGB será utilizada ao longo de toda a rua, permitindo diferentes combinações de cores e efeitos.

A árvore de aproximadamente 32 metros de altura, incluindo a estrela, continuará no cenário. Os personagens Sr. Moletta e Foquinho também estão previstos para a edição, cujo enredo ainda está em definição.

Até a abertura, as novidades seguirão dividindo espaço com a rotina dos moradores. Lucas continuará acompanhando obras, Eduardo terá provas pela frente e Tio Ni manterá os cuidados com a horta. Ao redor deles, a família dará forma ao Natal que começou a ser imaginado em março.

Quando as luzes finalmente se acenderem, o público encontrará o espetáculo pronto. Por trás dele, estarão meses de escolhas, construções e trabalho e, principalmente, uma vida cotidiana que continua, mesmo quando há Natal no quintal.

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