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A gravação de filmes cinematográficos e filmes publicitários nas ruas de Nova Iorque é uma constante.

 

Texto e fotos Jaime Bórquez

 

Mesmo quem bota os pés pela primeira vez na Big Apple, tem aquele déjà vu enganoso, mas não ache que suas capacidades sensoriais afloraram com tudo. É simplesmente sua memória cinéfila funcionando.

 

Pode parecer clichê, mas assim que desembarco no Aeroporto JFK a frase interior é sempre a mesma: já vi este filme. E este monólogo interior continua praticamente durante todos os dias que passo em NYC. Ruas, parques, prédios, restaurantes, as pontes sob o Hudson, o próprio metrô e os yellow cabs vão entrando no meu filme de novo. Sou vidrado na telona, desde criança. O filme Cinema Paradiso parece que foi feito encima da minha própria história, sinto-me totalmente identificado com o Totó. Meu cinema paradisíaco continua como uma série de tv interminável, não teve incêndio na sala e meu amigo projetor não ficou cego. Só sofri aquela grande perda junto a todo ser humano sensível neste planeta, no 11/09/2001, quando a irracionalidade apagou milhares de vidas e a uma das mais fortes imagens de cartão-postal da cidade.

 

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Yellow cab, o icônico táxi amarelo de Nova Iorque. 

 

Tenho a sorte de viajar a Nova Iorque quase todo ano, a trabalho. E se não tenho algum trabalho que me leve, invento um. Em cada uma delas tento visitar algum cenário que me foi mostrado em filmes. Com mapa na mão e uma penca de anotações e dicas, percorro Manhattan, com um i-pod cheio de músicas inspiradas na cidade que, como todo filme, tem também sua trilha musical.

 

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A frase “New York, você é o cenário de todos esses filmes”, que é por Simon & Garfunkel não pode ser mais direta. A canção não é deles e sim de Benny Gallagher e Graham Lyle, mas na voz de Art Garfunkel ela toma formas, cores e até cheiros da querida grande maçã. A mesma que foi retratada por um apaixonado newyorker, Woody Allen, num filme que mostra a beleza inexplicável e atração explicável que tem a cidade, num magistral retrato em branco e preto: Manhattan.

 

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Todo dia há, em diferentes pontos da cidade, alguma produção rodando algum filme, seja longa, média ou curta metragem, filmes publicitários e uma centena de videoclipes. Numa das minhas visitas à cidade fui almoçar do outro lado da ponte do Brooklin e dei de cara com a cantora Beyoncé fazendo um vídeo-clipe, justo na esquina da Bedford com a North 7th cheia de câmeras, carros de polícia, fitas amarelas e um monte de “cops”, ou policiais (a sigla deriva de constable on patrol = policial em patrulha, palavra que aprendi, claro assistindo a um filme). Fiquei horas ali, grudado no movimento febril de câmeras, luzes, fios e gente pilhada. Faz poucos dias relembrei desse encontro com ela ao fazer um zapping e parar na MTV simplesmente porque o cenário mostrado na telinha me era familiar. Lá estava Beyoncé, cantando na mesma esquina em que eu a vi há anos. Ela não vai se lembrar de mim ao ver o clipe, mas, isso não importa. Eu amo mesmo é Nova Iorque. Beyoncé só foi parte do cenário...

 

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Gravação de vídeoclipe de Beyoncé nas esquinas da Bedford Avenue com a North 7 St.

 

Em outra ocasião fiquei extasiado vendo como filmavam cenas de Sex and the City, com a mesmíssima Jessica Parker a poucos metros de meus arregalados olhos.

 

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Sara Jessica Parker filmando Sex and the City, atrás o Waldorf Astoria.

 

Tudo dentro da lei

 

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Ao contrário do que possa se pensar, as autoridades nova-iorquinas não têm o mínimo problema em que equipes de produção se tomem, literalmente, qualquer ponto da cidade. Pedindo a permissão e pagando as taxas correspondentes, você tem direito a gritar luz, câmera e ação onde quiser. Sem isso, a vida de cineasta amador, ou simples turista de câmera na mão e ideia na cabeça, pode tornar-se complicada. Por isso, vale esta dica: mesmo que você queira fazer cenas caprichadas da cidade para mostrar depois a seus amigos, sem enjoar eles com tremores ou movimentos bruscos da câmera, jamais use tripé. Se o faz, seguramente aparecerá um cop que vai tomar atitude e gritar a você a palavra corte, no ato. No permission? No tripod, my friend.

 

Tudo está muito bem organizado para que a indústria cinematográfica trabalhe sem contratempos. Existe uma seção especial da polícia para cobrir eventos que tenham a ver com produções de cinema ou tv. Você vai descobrir ela facinho facinho, tem escrito nas laterais do carro policial a palavra film unit. Esta unidade está especialmente dedicada à supervisão de filmagens e conta com os conhecimentos necessários para que o diretor e a equipe trabalhem em total tranqüilidade. Ninguém nem nada cruza ou incomoda as câmeras sem que esta equipe de policiais passe um pito bravo.

 

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Grand Central Terminal, estação central e terminal ferroviário e metroviário de Nova Iorque.

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Metrô de Nova York, presente em muitas cenas de filmes.

 

Outro ícone da vida nova-iorquina é o subway, o metrô da cidade. Acredite se quiser, ele começou a ser construído lá pelo ano de 1900 e foi inaugurado em 1904. São cento e quinze anos de gente andando embaixo da terra, que num dia qualquer da semana superam os cinco milhões. Você, seguramente, deve ter visto mais de algum filme que tem cenas feitas no metrô de Nova Iorque. E como filmar ali sem incomodar ninguém? Bem, primeiro que nada se deve para entrar em contato com a Film and Special Events Unit of the Department of Corporate Communications. Seu vice-presidente acredita que a NYC Transit oferece um recurso inestimável para a indústria cinematográfica e por extensão, fornece um benefício econômico para a cidade. "Recebemos pedidos de produções que as vezes exigem grande criatividade, flexibilidade e energia, mas, estamos conscientes que a empresa desempenha um papel vital no fomento da cidade de Nova York. Isto é realmente muito gratificante", explica. "e, além de contribuir para a autenticidade das produções vistas em todo o mundo, ajudamos a manter os benefícios econômicos que fluem de cada filme que se faz aqui em casa". A segurança costuma ser a preocupação principal da empresa e todas as produções que usam a NYC Transit são obrigados a tomar apólices de seguro de responsabilidade civil e ferroviária de pelo menos US$ 2 milhões cada.

 

Cenário de tantos filmes

 

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A famosa e icônica ponte do Brooklin.

 

O primeiro filme feito no sistema do NYC Transit foi de Thomas A. Edison, de 1904. A câmara foi montada na frente de um carro do metrô e percorreu a linha da Lexington Avenue, ao longo de toda sua rota. Não tem som nem enredo, mas, ali nasceu uma tradição ou, melhor dizendo, uma paixão por filmar no metrô da cidade. E como deixar a ponte Brooklin fora de algum filme que tenha a assinatura de Manhattan? Difícil. Em Sex and the City, o filme, há uma cena chave para os personagens, mas, não vamos dizer qual é para não estragar a surpresa, e ela acontece neste ponto, marco forte da cidade, como poderia ser a Estátua da Liberdade. A ponte acaba de fazer 136 anos em maio. A ponte tem bons lugares para o lazer como o Pier 1, em East River, entre Old Fulton y Furman St., que faz parte do Brooklyn Park, com cafés, mesas de piquenique, áreas de areia e grama, para desfrutar todos os dias da semana, das 10:00 às 22:00 horas. Os filmes rodados nesta cidade são centenas, tais como: “West Side Story”, que no Brasil se chamou “Amor Sublime Amor”, onde os cenários imitaram o “Spanish Harlem”, Spike Lee fez aqui “Faça a coisa certa”, aqui também se fez “O pecado mora ao lado”, com a maravilhosa Marilyn Monroe e sua famosa cena da saia sendo levantada pelo ar do metrô, outros filmes como “Touro Indomável”, “Você tem um email”, “Depois das horas”, “Manhattan”, enfim, são tantos que seria longo enumerar; além do que, temos certeza absoluta de que agora, enquanto você esta lendo este texto, estão fazendo mais alguma nova fita nas ruas da cidade.

 

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Além de cinematográfica, ela é também musical

 

Nova Iorque tem sido parte importante da história da música contemporânea, quer algumas dicas? O último álbum oficial de Jimi Hendrix, Band of Gypsies, foi gravado no Fillmore East, em Nova York, na passagem de ano de 1969, isso mesmo, réveillon, para 70, ano em que ele morreu. Hendrix também montou na cidade seu estúdio, o Electric Ladyland.

 

O bar/casa noturna onde surgiu o punk ficava no East Village. Chamava-se CBGB. Fechou há algum tempo. Lá fizeram suas estreias os Ramones, Television e Blondie.

 

Lennon gravou “New York City” em 1972, no disco “Sometimes in New York”. Ele morou frente ao Central Park no prédio Dakota, onde levou os tiros do maluco Mark David Chapman num 8 de dezembro de 1980. Este, aliás, lia “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger, cujo personagem principal é Holden Caufield, um adolescente revoltado que viaja da escola da qual foi expulso, até a cidade de Nova Iorque, onde moram seus pais.

 

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Central Park

 

São de New York:

 

A banda New York Dolls, precursora dos punks. Eles se vestiam quase como mulheres.

 

Al Kooper, o organista de “Like a Rolling Stone”, na gravação de Bob Dylan. Ele foi o fundador do grupo Blood, Sweat & Tears e autor de uma canção chamada New York, You're a Woman.

 

O cantor, guitarrista e compositor, Lou Reed, que escreveu muito bem sobre a barra pesada da cidade.

 

Harry Chapin, ex-taxista da cidade, que virou roqueiro — dos bons — e morreu há pouco.

 

Também daqui por perto são Simon & Garfunkel; The Talking Heads, o ótimo grupo vocal de jazz Manhattan Transfer e, claro, o grande Frank Sinatra, que cresceu no subúrbio de Hoboken, em New Jersey, mas, a só 15 minutos do centro de Manhattan.

 

O primeiro grande show de rock em estádios aconteceu em Nova Iorque "Beatles on the Shea Stadium”.

 

Joni Mitchell, que é canadense, tem uma música chamada “Chelsea” que, ao que tudo indica, inspirou o nome da filha de Bill e Hillary Clinton. Não foi o bairro londrino.

 

O melhor disco da história do soul foi gravado ao vivo em Nova Iorque: “James Brown Live at Apollo”. Sim, no mesmíssimo Teatro Apollo, do bairro do Harlem.

 

Por falar em soul, há uma grande canção dos Drifters, “On Broadway”, depois regravada, com grande sucesso, por George Benson.

 

O mais importante disco da história do jazz, “Kind of Blue”, foi gravado em Nova Iorque, nos antigos estúdios da Columbia, instalados numa velha igreja, que tinha uma acústica maravilhosa.

 

Escrever sobre Nova Iorque, a Big Apple, é tentador demais. São tantos temas que ela leva dentro que é melhor parar por aqui, preparar um uísque on the rocks e sentar num confortável sofá escutando “New York, New York”, pela voz do eterno Frank Sinatra, que a cada dia cantava melhor...

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