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Texto e fotos de Jaime Bórquez

 

‘The liquid drops of tears that you have shed

Shall come again, transform´d to orient pearl.’

Ricardo III, Ato IV, Cena IV - Shakespeare

 

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Pérola no valor de 75.420 euros ou cerca de 83.301 dólares americanos. Foto: Jaime Bórquez

 

Quem visitar a Polinésia Francesa, Taiti e suas ilhas, terá a oportunidade de ver a criação de pérolas negras e comprar a preços pra lá de convenientes. É bom saber um pouco mais destas joias que vem do mar.

 

Diz a lenda árabe que gotas de orvalho caíram do céu numa noite de lua cheia. Eram as primeiras pérolas que carregaram até as profundezas do oceano as maravilhosas luzes das estrelas que marcam nosso tempo. A pérola simboliza a noite, o inconsciente, o mistério do nascimento, a luz pura. Ë como uma chama na qual as mariposas de nossos desejos queimam suas asas.

 

A história da pérola se mistura com a história da própria humanidade. Todas as civilizações lhe deram grande valor. Para os Indus a perola representou a felicidade, para os árabes, saúde, na China ela tinha o dom da cura e para os egípcios, significou o amor. Se hoje os homens cobrem as mulheres que admiram e tentam seduzi-las com valiosas pérolas, é bom lembrar que no passado também adornaram suas deusas com essas valiosas esferas.

 

Dizem que Cleópatra desafiou demonstrar seu amor e riqueza a Marco Antonio de uma maneira muito especial. Organizou uma festa que custou dez milhões de sestércios, uma fortuna na época. No meio dela, mostrou suas pérolas mais valiosas. Tomou uma delas, a moeu e botou o pó num copo cheio de vinho. Na frente de uma plateia estupefata, bebeu o vinho com a pérola ganhando a aposta e o coração daquele que era seu inimigo.

 

Etimologicamente, a palavra pérola significou pureza para os gregos, enquanto que para os romanos foi sinónimo de amor e prazer. Mas, para os taitianos as pérolas negras são, hoje, o segundo ingresso de divisas depois do turismo. E elas significam, sem dúvida nenhuma, riqueza. Eles devem isto ao francês Jean Claude Brouillet, quem desenvolveu a produção e a comercialização massiva de pérolas negras no Taiti. Brouillet tem uma história fascinante. Morando na África, criou a Air Gabão, e quando esta transformou-se em uma grande companhia de nível internacional, a vendeu ao governo desse país. Daí partiu à Polinésia Francesa e instalou o primeiro viveiro de ostras perlíferas. Quando os negócios começaram a dar seus frutos, construiu o primeiro hotel num atol, o Kia Ora de Ranguiroa. Ë uma obra prima de harmonia entre a paisagem paradisíaca e quase virgem da ilha e os bangalôs com todo o conforto necessário. Obra dele é também o hotel Ia Ora de Moorea, situado na melhor praia da ilha, justo em frente de Papeete, capital da Polinésia Francesa.

 

Ranguiroa Hotel Kia Ora

Hotel Kia Ora em Ranguiroa. Foto: Jaime Bórquez

 

Mas, Brouillet não vivia sem novos desafios. Vendeu sua empresa de pérolas a Robert Wan, hoje o principal produtor e comercializador do produto na Polinésia, logo vendeu seus hotéis e comprou uma fazenda no Chaco paraguaio, cuja superfície é maior que o Taiti. Brouillet passou a fazenda para seu filho e mudou-se para Los Angeles, quem sabe planejando a próxima empreitada.

 

Um mergulho no século XVIII

 

Moorea

Ilha de Moorea. Foto: Jaime Bórquez

 

Estavam ¨descobertas¨ as ilhas do Pacífico. Uma onda de entusiasmo levou até essas terras todo tipo de gente, de comerciantes a aventureiros. Polinésia, e mais especificamente as ilhas Tuamotu, não escaparam desta onda poderosa. Numerosos navios carregados de marinheiros ávidos de riqueza rápida, navegaram por entre atóis a arrecifes de coral com mapas e cartas de criminosa e irresponsável elaboração. Mas, a experiência de alguns deixou as linhas mais claras. Assim começou o comércio com a copra, o nácar, as carcaças de tartaruga, o sândalo e, é claro, as famosas pérolas naturais. Os mantos de ostras perlíferas das ilhas Tuamotu e Gambier constituíam provavelmente a maior reserva intacta do planeta. Elas foram exploradas progressivamente até a extinção. Antes do desenvolvimento das pérolas cultivadas onde a Pinctada Margaritifera teve maior importância, o nácar foi um produto altamente apreciado pelo mercado europeu. Com ela se faziam botões, coronhas de pistolas, crucifixos, pentes, asas de ventoinhas e teclas de gaitas de fole, entre outras. Contudo, a indústria de botões foi a maior responsável pela exploração das lagoas e, é claro, das ostras e suas conchas. No começo do século XVIII, a Europa decididamente tinha nos botões de madre-pérola uma indústria sustentada na base do nácar dos mares do sul. Só a Inglaterra importava nada menos que cinco a seis mil toneladas de nácar por ano, e a França não fazia feio, com 2.500 toneladas. A Áustria contratava mais de oito mil pessoas para esse trabalho e a França pelo menos a metade disso. Os barcos descarregavam ao redor de 1.500 toneladas por ano na Europa, via Chile. Esta frutífera atividade se prolongou por um período de quase 150 anos.

 

Durante a conquista da Polinésia, e especialmente a do arquipélago das Tuamotu, no final dos anos 1880, a França teve o controle da maior área de pesca no mundo. A recolecção de nácar e pérolas foi, no começo, centrada nas ilhas Tuamotu, embora a observação indicava sua presença nas lagoas de todos os arquipélagos. A pesca foi intensa até que as autoridades ordenaram um censo, em 1883. Conduzido por G. Bouchon Brandely em 1885, este estudo recomendava uma estrita regulamentação sobre a temporada de pesca, as zonas definidas e seus limites para exploração com tempo suficiente para o repovoamento. Depois de publicadas no Jornal Oficial das Colônias material sobre as ilhas e atóis onde a captura estava aberta, começou uma imigração inter-ilhas durante as épocas cruciais, nunca dantes vista. Famílias completas de mergulhadores começaram a desembarcar nas ilhas galinhas, porcos, cordas, material de pesca, canoas e barracas improvisadas. A captura de alguma pérola dentro de uma ostra, permitia a alguns a realização do sonho da ¨boa fortuna¨. Esta era uma grande sorte, já que a chance de achar uma ostra com pérola era de uma em um milhar.

 

Um japonês no caminho

 

Kichimatsu Mikimoto nasceu em 1858. Era o filho maior de uma família que tinha uma grande fábrica de espaguetes em Toba, pequena aldeia de pescadores no Japão. Desde menino, teve fascinação pelos ¨amas¨, os mergulhadores de pérolas, e mais ainda pelas ostras quando soube que estavam em perigo de extinção. Com os conselhos de um professor de Tóquio, profundo conhecedor da vida das ostras, Mikimoto começou a desenvolver sua técnica de enxerto. Esta consiste em introduzir uma perfeita esfera, o núcleo, feito de uma concha de mexilhão cultivado no rio Mississipi, dentro da gónada da ostra. De outra ostra sacrificada, se extrai um diminuto pedaço de manto. Este contém as células do epitélio, indispensáveis para a formação do nácar. As células da ostra sacrificada desenvolvem um saco ao redor do núcleo implantado, o qual uma vez fechado, secretará o material que formará a pérola. A ostra com o núcleo implantado é submetida a um prolongado jejum. Assim seu metabolismo diminui, a gónada fica vazia, minorando o risco de rejeição.

 

Processo Perolas

Foto: Jaime Bórquez

 

Mikimoto enfrentou catástrofes naturais que se deixaram cair com sanha na sua fazenda marinha. Furacões, maré vermelha, invasão de polvos e outras desgraças não fizeram decair o ânimo deste lutador incansável. Em 1905, fez sua primeira, porém modesta safra. Em 1916, obteve sua patente de inventor e em 1951, sua fazenda passou dos 20 milhões de pérolas produzidas desde sua abertura. Mikimoto morreu à venerável idade de 97 anos.

 

Embora pareça fácil, o cultivo de ostras é muito mais complicado do que parece. A operação é muito delicada e somente dez de cada cem ostras resistem ao choque do enxerto, dez morrem no segundo ano de cultivo e 30% rejeitam o núcleo. Dos cinquenta por cento restante com boa saúde e produtivas, 20 % não chegam a ter bons preços e só os 30 % finais tem valor comercial atrativo, embora só uma ou duas pérolas chegam a ter a qualidade de ¨gema perfeita¨. É fácil imaginar a dificuldade em fazer um par de brincos ou de compor um colar com boas pérolas. Há quatro tipos de ostras perlíferas. Elas são a Pinctada margaritifera, a Pinctada fucata, a Pinctada maxima e a Pinctada martensi. A Polinésia é uma região excepcional para o crescimento e criação da Pinctada margaritifera. A cor das pérolas depende de quatro fatores. O primeiro e mais importante é a cor do manto da ostra; no caso a que se cultiva na polinésia, a margaritifera, tem lábio preto. Daí que as pérolas sejam negras. Mas, há também pérolas amarelas, cinzas ou esverdeadas. Estas cores podem ser produzidas por sais minerais, magnésio, óxido de ferro, alumínio ou outros elementos presentes na água em que se cultivam, como também podem sofrer mudanças de cor por grau de salinidade, plânctons ou temperatura da água.

 

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Colar de pérolas negras no valor de EUR 402.247 ou USD 444.289. Foto: Jaime Bórquez

 

A Ilha de Manihi, famosa por suas pérolas negras

 

É muito comum escutar falar do Taiti como o conjunto de ilhas, embora ela seja só uma, onde se encontra Papeete, sua capital, e o aeroporto internacional de Faaa, porta de entrada ao paradisíaco mundo da Polinésia Francesa. A mais recente descoberta turística da região é a ilha de Manihi, no atol das ilhas Tuamotu, a 520 km de Taiti, a qual se chega depois de quase duas horas de voo de Papeete. É um anel coralino relativamente pequeno, em cujo centro, uma lagoa de águas cristalinas mostra todo o espectro que o azul é capaz de oferecer. O ambiente da ilha é intimo e remoto. A totalidade da população não passa de 400 pessoas, a grande maioria vivendo na aldeia de Turipaoa, que tem só 200 metros de largura.

 

Gente amável e muito simples, de sorriso generoso e comunicativo, tem como principal meio de vida o cultivo de ostras. Até poucos anos atrás, só era visitada por aqueles mergulhadores que sabiam das maravilhas que seu mar oferece, mas não contavam para muita gente. Esse segredo deu a Manihi uma áurea mística, onde só os iniciados chegavam a desvendar seus segredos. As opções de hospedagem eram mínimas. Duas casas de pensão, muito básicas, e um hotel de sofrível atenção. Hoje há o Manihi Pearl Beach Resort, um hotel de primeiríssima qualidade, com palafitas e bangalôs de sofisticada arquitetura. Construído em lingue e roble, madeiras nobres chilenas, o hotel recebe uma avalanche de visitantes, que com máscaras e snorkel se emocionam com seu fundo marinho, um verdadeiro espetáculo. Quase não existem carros e o transporte mais comum é a lancha. Todas as atividades turísticas têm o mar e as ilhotas, os motus, como principal atração.

 

O snorkeling no passo é uma das excursões mais procuradas. A lancha leva os turistas até uma das bocas que conecta a lagoa com o mar, onde eles pulam na água transparente e se deixam levar pela correnteza que vem do mar aberto. Na água, passeiam raias manta, tartarugas, napoleões e tubarões cinzas, milhares de peixes coloridos, enquanto corais dos mais diversos tons cobrem o fundo como um carpete mágico. A visibilidade é extraordinária, no mínimo 60 metros ao redor. Pode se chegar até a face externa do atol, onde há um precipício que se perde até as profundezas abissais. A pesca é outra opção perfeita. É ponto menos que impossível voltar ao hotel sem um bom peixe. Cações de bom tamanho costumam dar bons sustos nos pescadores desavisados.

 

Há também visitas às fazendas de cultivo de ostras perlíferas, onde se aprende algo desse complicado negócio e pode-se adquirir pérolas negras ao melhor preço da Polinésia Francesa. Manihi é o lugar especial para quem gosta de mar e sonha em ficar isolado do mundo exterior O tempo parece passar mais lentamente nesta ilha perdida nos mares do sul. E isto é, com certeza, a mística que fascina a todos seus visitantes.

 

Perolas

 Foto: Jaime Bórquez

 

Antes de comprar pérolas, algumas dicas

 

Um comprador expert usa sete critérios na escolha das boas pérolas. Estes são:

 

O tamanho ou diâmetro de 9 até 18 mm e de 25 a 30 mm nas pérolas baroque.

 

Orient (termo que deriva de Oriente, a origem das pérolas), que tem a ver com o lustre, o brilho ou fulgor. Aos olhos do conhecedor, este brilho é julgado pela parte da pérola que esta à sombra, e pode ser observado não como um erro nos reflexos e sim como um fulgor que vem da própria pérola.

 

A forma, arredondada, em forma de pêra ou baroque.

 

O polimento, a finura de sua superfície, bem suave e macia, sem falhas.

 

A textura, o grosso ou densidade da camada exterior, para o qual é preciso usar raio X. Ela tem entre 1 e 1,5 mm.

 

O peso, que é medido em ¨grãos¨, e um grão é o equivalente a ¼ de quilate, ou 5 centigramas.

 

A cor, uniformidade na cor.

 

Existem também tipos de pérolas baratas, como o Keishi, pequeno baroque, produzido pela rejeição do núcleo feito pela ostra, e o Mabe, um produto secundário obtido de forma muito simples. Um pedaço de concha é colado do lado de dentro da ostra, embaixo do manto. A madrepérola vai cobrindo esse corpo estranho e depois de um ano é praticamente um caroço nacarado. A ostra usada para isto é velha e este é seu último produto. O Mabe é retirado cortando a concha e a ostra termina assim seus dias.

 

Para que suas pérolas se mantenham muitos anos em bom estado, siga estes conselhos. Nunca tome banho com elas. Não as ponha em contato com cosméticos, perfumes ou sprays. Ponha um copo de água perto de seu porta-joias se vai deixar de usar suas pérolas por tempo prolongado. Não use ou ponha sua pérola em contato com outras joias ou pedras que possam arranhar sua superfície. Depois de usadas, limpe as pérolas com um pano de textura suave, frotando com muito cuidado. Troque a linha ou filamento interno de seu colar uma vez por ano. Mantenha felizes suas pérolas usando-as o maior número de vezes possível, assim elas se reidratarão com o contato com sua pele, prolongando e mantendo sua beleza original.

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